Tomo a iniciativa de escrever sobre a reportagem que foi levada ao ar no “Fantástico” da Rede Globo, no domingo, 18 de setembro. Faço isso antes que alguém venha me perguntar a opinião e deixe escapar velhos discursos sobre a selvageria dos povos indígenas ressuscitando antiga falta de compreensão da gente brasileira sobre nossa gente indígena.
Antes, porém, gostaria de enfatizar o papel dos meios de comunicação como formadores de opinião. É de todos sabidos que os MCS, sobretudo a televisão, têm um grande poder sobre a mente das pessoas. É ela que forma opinião e dá rumos aos comportamentos das pessoas. Sim, mas qual opinião? Qual opinião que a televisão quer fazer prevalecer? A opinião do ocidente é claro. O ocidente traz um olhar quadrado, conhecido por todas as pessoas. Ou seja, traz uma visão conceitual partilhada por todas as pessoas da sociedade. É uma visão quadrada sobre eventos que estão acontecendo dentro de um contexto holístico, circular, portanto, procura mostrar como o olhar do ocidente é superior, humano, positivo. Por isso, traz um olhar sobre as culturas, em tudo semelhante ao olhar dos primeiros colonizadores que viam as culturas nativas como resultado de mentes inocentes, pueris, pagãs que precisavam ser “cristianizadas”.
E aqui cabe também pensar no papel das entidades religiosas que, desde o século XVI, são as principais desestabilizadoras das culturas indígenas. Foram elas que trouxeram a desintegração social, os desarranjos psicológicos e culturais; foram elas que “arrancaram” a alma e disseminaram o ódio e o rancor contra os povos indígenas, marcas que até hoje são sentidas por nossa gente. Foram elas também que, com a desculpa de levar os índios a Deus, desestruturaram famílias inteiras saqueando as histórias ancestrais de dentro das crianças e colocando no lugar um Deus repleto de ideologias e máscaras que serve apenas para alguns privilegiados.
Na reportagem o que foi mostrado foi a “humanidade” de uns sobre a “desumanidade” de outros. Esta humanidade primeira é sustentada pelo gesto piedoso e humano de missionários que atuam entre os Zuruahã há muitos anos e a desumanidade segunda, foi representada por dois “tipos” que sequer sabiam se expressar na língua “civilizada”.
Na seqüência, a reportagem mostrou outra tragédia em Roraima quando foram queimadas casas e postos de saúde em represália, segundo o texto jornalístico, pela homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol. Os dois únicos culpados que foram capturados pela policia federal foram dois “índios” contrários ao ato governamental. Segundo nota que o Conselho Indígena de Roraima (CIR) fez circular ainda no domingo, dia 18, dava-se como um ato praticado por aproximadamente 150 pessoas. No entanto, apenas dois índios haviam sido presos pelo crime. Sintomático, eu diria.
As perguntas que ficam no ar para os dois episódios: o que estes “índios” querem? Têm terra, mas não se entendem? Ficam brigando ao invés de produzirem? Preferem matar os filhos invés de cuidar deles?
Obviamente que não defendo assassinatos de crianças, mas isso não acontece também na dita civilização? Será preciso lembrar o número de meninos e meninas explorados? De velhos e velhas tratados como lixo pelas autoridades e pela sociedade brasileira? De gente morrendo de fome e de sede, apesar dos transgênicos, colocados como salvadores da fome e da miséria? Da violência urbana, do assassinato de inocentes, de aborto, de prostituição? Pimenta no olho dos outros é refresco, diz o velho ditado.
Colocar esse tipo de matéria no ar, ouvindo apenas dois inocentes que foram flagrados sofrendo por terem que cumprir a voz ancestral da cultura que lhes garante que aquelas duas crianças não terão vida social completa; que lhes sopra no ouvido o respeito à sua tradição deve ser mantido; que lhes diz que é preciso tomar uma decisão pelo bem comum e não apenas pelo bem pessoal; que lhes acalenta garantindo que aquelas crianças serão felizes ao se unir aos antepassados no umbral da morte; ou, por outro lado, colocar duas agências governamentais se digladiando sobre a responsabilidade pela solução do problema; ou ainda, uma missionária traduzindo o intraduzível é, no mínimo, uma irresponsabilidade e um desrespeito, primeiro ao povo brasileiro que também não está preparado para este tipo de sensacionalismo, pois ele consegue conviver com sua miséria, com suas mazelas políticas, com seus jeitinhos, mas não sabe tolerar a diferença convivendo tão perto de si; e, segundo, ao povo indígena Zuruahã que não merece ser exposto de forma tão inusitada a uma sociedade que sequer os conhece.
De minha parte, acho que não se deve imputar como crime a manutenção de um código cultural construído há milhares de anos e sustentado por homens e mulheres fortes e criativos que conseguem dar sentido à própria existência renovando gestos e símbolos eivados de dor e de sofrimento.
Acho que a reportagem foi infeliz e por isso toda a sociedade brasileira foi dormir, ao menos no domingo, também muito infeliz.